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ARTIGOS


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Renúncia e Criação: Thomas Mann, Burckhardt e a Linguagem da Impotência:
Pedro Pereira Caldas



- Bar Don Juan (1971) de Antônio Callado: Impasses Políticos e Estéticos do Romance Engajado: Cláudia Helena da Cruz



- Apropriações e Historicidade de “Tambores na Noite” no Brasil de 1972: Rodrigo de Freitas Costa




- Filosofia e Dramaturgia: A Construção de uma Realidade Humana em Mortos Sem Sepultura (Jean-Paul Sartre, 1945): Maria Abadia Cardoso



- História e Imagem: João Câmara e a era Vargas: Maria de Fátima Morethy Couto



- Identidade, Alteridade e Religião na Historiografia Colonial: Karina Kosicki Bellotti



- Ballet Stagium e o Debate Sobre a Dança Moderna Brasileira no Contexto Sócio-Político da Década de 1970: Daniela Reis

RESENHA


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A Palco Armado: “Teatro de Arena – uma Estética de Resistência”, por Iaías Almada:
Talitta Tatiane

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EDITORIAL


É com grande satisfação que trazemos a público o segundo número da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. Nesse momento em que o espaço da Internet se torna um dos campos privilegiados de divulgação de idéias e de conhecimentos múltiplos podemos afirmar que esta edição significa o reforço de dois importantes matizes do trabalho intelectual contemporâneo, em especial do ofício de historiador.

Em primeiro lugar, atualmente, não se pode falar em pesquisa acadêmica nas humanidades sem se deparar com uma situação no mínimo conflituosa ou incerta, pois, ao mesmo tempo em que os temas, métodos e documentos se multiplicam, o incentivo à pesquisa é reduzido ou realocado para outras áreas do conhecimento. Em meio a esse ambiente se encontra o pesquisador e, em nosso caso específico, o historiador contemporâneo, o qual tenta de maneira relutante dar forma e sentido ao seu trabalho. Como a ave da mitologia grega que renasce das cinzas, a nossa historiografia renasce cotidianamente das adversidades, demonstrando não só sua importância, mas também sua capacidade reflexiva, consistência metodológica e competência comunicativa. De maneira específica cada um desses atributos compõem os artigos deste número da Fênix enriquecendo este espaço de divulgação e comunicação.

Além disso, não é possível retirar do atual vigor da pesquisa histórica algo que é construído cotidianamente e, sem dúvida, compõe uma de suas mais importantes peculiaridades: a capacidade de “fazer saltar pelos ares o continuum da história”. Nos sentimos enobrecidos em poder utilizar as palavras do pensador Walter Benjamin, ao apresentar o segundo número da Fênix , visto que os ensinamentos de um pensador marxista não ortodoxo, que fez de seu trabalho a súmula da liberdade humana, compõem os objetivos deste espaço de divulgação e, de maneira implícita, se faz presente em cada um dos artigos deste número. Elegendo obras de arte como lugar privilegiado de pesquisa, o historiador consegue olhar para o passado a partir de seu próprio tempo explodindo com o continuum da história; e isso poderá ser vislumbrado neste segundo número da Fênix.

Unindo, portanto, estes dois matizes do trabalho historiográfico contemporâneo – o vigor reflexivo e o repensar sobre a linearidade temporal – esta edição da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais é composta por artigos que versam sobre literatura, teatro, artes plásticas, debate intelectual, dança, além da seção de resenhas.

O debate entre História e Literatura é composto pelos artigos de Pedro Pereira Caldas e Cláudia Helena da Cruz. Caldas, ao pensar o problema da “renúncia do mundo”, trava instigante diálogo com Friedrich Nietzsche e Jacob Burckhardt tendo por princípio a análise de dois romances de Thomas Mann, Os Buddenbrooks e Sua Alteza Real , proporcionando uma leitura prazerosa e de grande erudição que realça os meandros da produção literária e intelectual germânica. É um artigo que se insere no âmbito da historicidade das idéias, fugindo de anacronismos e enriquecendo a produção historiográfica sobre a Alemanha. Cruz, por sua vez, ao tratar do Brasil da década de 1970, utiliza-se do romance Bar Don Juan de Antônio Callado, procurando compreender como o autor lança um olhar estético para as questões político-sociais e culturais daquele momento.

No que tange ao debate História e Teatro, os artigos de Rodrigo de Freitas Costa e Maria Abadia Cardoso propiciam o contato com dois importantes expoentes da dramaturgia moderna. Costa, ao elencar o estudo de Tambores na Noite de Bertolt Brecht, analisa como os questionamentos suscitados por sua escrita encontram ressonância no Brasil da década de 1970, compreendendo como a linguagem cênica, criada pelo diretor Fernando Peixoto, resignifica o texto e a teoria brechtiana. Por outro lado, com a análise do texto dramático Mortos sem Sepultura de Jean-Paul Sartre, Cardoso recupera de forma instigante os meandros que envolvem a filosofia sartreana e a obra dramática do mesmo autor, ressaltando a importância da historicidade nesta correlação.

Somos contemplados ainda com o artigo de Maria de Fátima Morethy Couto que, ao analisar Cenas da vida brasileira (1930-1954) de João Câmara, ilumina o debate entre História e Artes Plásticas, fazendo emergir questões relativas à recepção do objeto artístico e a construção de diversas interpretações sobre a produção de Câmara. Por fim, Karina Koiscki Bellotti aprofunda o debate intelectual quando aborda três momentos da produção historiográfica sobre a América Portuguesa. Ao problematizar os conceitos de religião, identidade e alteridade em três autores – Anita Novinsky, Laura de Mello e Souza e Mariza Soares –, a autora aproxima essa análise das preocupações recentes da História Cultural.

Daniela Sousa Reis ao contextualizar o Ballet Stagium na década de 1970 busca descortinar de que maneira a linguagem artística da dança esteve diretamente articulada com as questões políticas, sociais e culturais deste período a partir da análise de uma nova proposta estética do grupo que visava uma identidade nacional.

Na seção de resenhas encontramos a indicação de Talitta Tatiane Martins Freitas. Ao abordar o livro de Izaías Almada, Teatro de Arena – Uma estética da Resistência , nos possibilita conhecer uma das mais importantes experiências teatrais da década de 1960 por meio do olhar de um de seus expoentes.
Mais uma vez, desejamos a todos uma boa leitura e esperamos que este número da Fênix possa contribuir para o debate intelectual contemporâneo.
 
 
Jacques Elias de Carvalho, Rodrigo de Freitas Costa
e Sandra Rodart Araújo

Secretaria Executiva da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais